No começo de julho, a cidade sul-mato-grossense, de 110 mil habitantes, tinha cerca de 400 haitianos recém-chegados ao Brasil. Na época, mais de 100 imigrantes tiveram de dormir na rodoviária. Os outros foram levados para abrigos improvisados na cidade, como em casas cedidas por moradores.
Muitos haitianos têm deixado o Chile desde que o país endureceu a legislação de imigração, em abril. O presidente chileno, Sebastián Piñera, após assumir o poder em março, argumentou que a medida seria necessária porque a região recebeu, na última década, uma grande população de estrangeiros.
Para aqueles que vêm do Chile, o Brasil representa uma segunda oportunidade de reconstruir a vida, depois de deixar o país de origem. O fluxo de haitianos para outros países teve início após o terremoto de 2010, catástrofe que agravou os problemas sociais do país mais pobre das Américas. No Brasil, conforme dados divulgados pela Polícia Federal neste ano, há 94,4 mil haitianos.
Em busca de refúgio ao deixar o Chile, os haitianos pegam um ônibus em Santiago - capital chilena - para Corumbá, uma viagem de três a quatro dias. O ônibus sobre para Iquique, na costa norte do Chile, onde entra à direita, atravessa os Andes e a Bolívia, passando por Cochabamba, Santa Cruz de la Sierra e Puerto Quijarro, cidade que faz fronteira com o Brasil. Por fim, chegam à região sul-mato-grossense.
Os imigrantes são trazidos com ajuda de coiotes, contratados ainda no Chile, que cobram para auxiliá-los a chegar ao país. No trajeto, principalmente durante a passagem pela Bolívia, muitos haitianos são roubados ou alvos de extorsão e têm os pertences levados.
Conforme a Defensoria Pública da União (DPU), 90% dos haitianos que chegaram a Corumbá nos últimos meses são homens - característica do grosso da imigração haitiana ao Brasil desde 2010. Em menor quantidade, há também mulheres, algumas gestantes, e seus filhos.
A reportagem obteve documentos nos quais a Polícia Federal afirma que entraram por Corumbá, entre janeiro a 22 de julho deste ano, 1,8 mil haitianos vindos do Chile. Entidades que prestam apoio aos imigrantes na região, porém, afirmam que o número pode ser maior, pois muitos não procuraram a PF, por medo de serem impedidos de permanecer no país.
Os imigrantes em Corumbá
A falta de recursos e dificuldades relacionadas a documentação fazem com que muitos imigrantes permaneçam temporariamente em Corumbá, ao desembarcarem na cidade. Em 13 de julho, segundo o Comitê Municipal de Atenção aos Imigrantes, havia 393 haitianos na cidade. Muitos, sem alternativa ou auxílio do poder público, pediram auxílio a moradores e autoridades da região. O caso mobilizou os habitantes da cidade, cujo único albergue destinado a pessoas em situação de rua possui apenas 22 vagas.
De acordo com autoridades de Corumbá ouvidas pela BBC News Brasil, a onda de migração haitiana tornou-se menos intensa neste mês. Os imigrantes que chegaram ao município em julho foram para outras regiões do Brasil, após passarem por procedimentos na Polícia Federal, que aumentou os atendimentos na cidade para que pudesse receber todas as pessoas que vieram do Chile.
O defensor público federal João Chaves frisa que a redução no número de haitianos em Corumbá não pode ser vista como algo permanente. Ele alerta que existe a possibilidade de a região receber ainda mais imigrantes nas próximas semanas.
Chaves pontua que, caso as autoridades não estejam atentas ao município fronteiriço, a região pode enfrentar situação semelhante a Pacaraima, em Roraima, que recebe venezuelanos desde 2016. Na cidade roraimense, a maciça presença dos imigrantes vizinhos sobrecarregou os serviços públicos da região e gerou conflitos.
"Existe essa possibilidade em Corumbá [de viver algo semelhante a Pacaraima], em uma proporção menor, caso não sejam tomadas medidas para ordenar o fluxo. Mesmo com a redução atual no número de imigrantes, esse aumento ainda pode acontecer novamente, a depender da situação no Chile. É necessário que a Polícia Federal e o Ministério da Justiça mantenham a atenção a esse caso e reconheçam a gravidade dele", alerta Chaves.
Em documento de 23 de julho, encaminhado à Defensoria Pública da União (DPU), a Polícia Federal também reconhece a possibilidade de que a presença de haitianos em Corumbá aumente nos próximos meses. "Releva notar que existe a possibilidade de um grande número de migrantes haitianos saírem do Chile e virem para o território nacional e haver uma nova demanda significativa no futuro", relata a PF, em ofício ao qual a BBC News Brasil teve acesso.
Informações Site BBC News Brasil






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